Gripe suína: pandemia ou pandemônio?

No momento em que escrevo este texto, a população encontra-se alarmada com a pandemia de gripe suína. A palavra pandemia é sinônimo de epidemia generalizada.

Agora há pouco, o Ministro da Saúde divulgou que cerca de duzentas mortes já ocorreram no país.  Quando vocês estiverem lendo este texto, o número já deve ser maior.

Os pronto-socorros estão lotados, estamos trabalhando com horários extras nos consultórios, as pessoas querem consultas para hoje, todas se considerando “casos urgentes”.

Estamos assistindo a muita cobertura da mídia, mas também muita boataria na internet, e muita fofoca. Informação correta é bom para todos, mas “desinformação” não ajuda em nada. Chegaram a divulgar que mais de vinte médicos de uma capital tinham morrido. O que foi prontamente desmentido pelo plano de saúde ao qual pertenceriam.

Tanto as gripes como os resfriados são doenças causadas por vírus. Existem mais de 200 tipos de vírus que podem causar o resfriado, e os mais freqüentes são os rinovírus, os coronavírus e os adenovírus. Já a gripe tem como causa mais freqüente os vírus do tipo influenza. E aí surgiu uma nova variação, o vírus A(H1N1), com material genético do porco, que caracteriza esta chamada “gripe suína”.

As gripes são mais intensas que os resfriados, isto é, tem sintomas mais agressivos. Geralmente tem início rápido, com febre alta, geralmente maior que 38°C, que dura em média 3 a 5 dias. A tosse é mais seca na gripe, raramente tendo alguma secreção, e pode ter dor de garganta mais forte. Cursa com dores musculares, que podem deixar a pessoa de cama, e podem ser intensas. Em outras palavras, “derruba” a pessoa, com dificuldade para o trabalho e as atividades rotineiras, com cansaço fácil. As dores musculares e o cansaço podem persistir por mais do que 7 a 10 dias na gripe.

Já o resfriado tem menos congestão nasal e coriza, tem uma tosse irritativa, que pode ter a eliminação de secreção, geralmente muco (secreção clara e viscosa). Tem início mais lento, com febre geralmente ausente, e quando presente, é baixa. No resfriado, se aparecerem dores musculares, freqüentemente são leves e não impedem as atividades, podendo causar algum cansaço discreto e por período curto, menos que 4 ou 5 dias.

Não existem pessoas que “vivam gripadas” ou que tenham “gripe” várias vezes por ano. Gripe, se tiver, é uma, no máximo, por ano. O resto é resfriado, ou outras infecções, ou alergias, ou outra coisa. Gripe não se esquece fácil.

Confesso que mesmo com o consultório cheio, muitos colegas médicos tem me contado que tem atendido realmente poucos casos urgentes. A maior parte são casos de resfriados, rino-sinusites virais, pneumonias leves, alguns com gripe real, a maior parte destes com gripe comum, e felizmente pouquíssimos casos mais graves. Num universo de um plano de saúde com cerca de 50 mil clientes, em Limeira, SP,  cerca de seis necessitaram internação pois tinham alta suspeita de gripe suína grave, só um confirmado até o momento, e nenhum óbito no seu hospital, felizmente.

Portanto, estamos tendo muitos casos de resfriado e bem menos de gripes.

A taxa de letalidade da citada gripe suína é de 0,09 por cento. Ou seja, de cada dez mil pessoas infectadas, nove podem morrer. É considerada baixa até mesmo em comparação com a gripe comum, que somente no mês de julho do ano passado, matou mais de 4000 pessoas.

Nas próximas semanas, o clima vai se tornar menos propício para a disseminação do vírus. Basta esquentar um pouco e acabam-se os resfriados e as gripes. A vacina já está em produção e estará disponível a todos no ano que vem.

Para efeito de comparação: apenas para pacientes do SUS, somente em maio deste ano, foram internadas  7500 pessoas com dengue;  quase mil com tuberculose de vias respiratórias; 3000 com AIDS. 272 com malária. 1200 com câncer de pulmão. 3500 mulheres com câncer de mama. Quase 4000 com câncer de útero e colo de útero. Muitas destas pessoas morreram. Todos estes dados são do DATASUS e estão disponíveis para consulta pública na internet. Mas são doenças a que já estamos acostumados e até já esquecemos delas.

Acredito que deva haver uma preocupação com a gripe suína e todos os cuidados devem ser tomados, como lavar as mãos freqüentemente, evitar aglomerações, viagens desnecessárias, contato com secreções e com doentes, etc. e tal.

Mas também devemos ter o cuidado redobrado para se evitar o pandemônio. Pandemônio, segundo o Aurélio, é tumulto, balbúrdia ou confusão. E pandemônio só serve para piorar a pandemia.

Dr. Luiz Ricardo Menezes Bastos< ><-->

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